Sobrecarga materna: psicóloga explica os impactos de estar sempre disponível
Foto: Arquivo Pessoal
Além das responsabilidades relacionadas aos cuidados com os filhos, muitas mães também assumem a organização da casa, o planejamento da rotina familiar, o acompanhamento de compromissos, a resolução de situações inesperadas e, ao mesmo tempo, precisam conciliar essas tarefas com o trabalho. Essa combinação de obrigações, muitas vezes pouco percebida, pode provocar desgaste emocional e psicológico.
Segundo o relatório Esgotadas, produzido pelo Lab Think Olga, laboratório independente voltado à promoção da equidade de gênero, 45% das mulheres brasileiras têm diagnóstico de ansiedade, depressão ou algum tipo de transtorno mental.
O levantamento também aponta que falta de dinheiro, excesso de responsabilidades e insatisfação profissional estão entre os principais fatores associados ao esgotamento feminino. No caso das mães, essa pressão pode ser ainda maior. A psicóloga Fabiane Veimrober explica que muitas mulheres encontram dificuldades até mesmo para interromper a rotina e descansar, já que continuam mentalmente ligadas às necessidades dos filhos.
“A maternidade envolve uma carga que vai muito além dos cuidados práticos com a criança. Existe além da carga física, a chamada carga mental, que é o alerta e esforço constante de planejar, lembrar, antecipar problemas e tomar decisões o tempo todo sobre a vida prática e emocional dos filhos. Muitas mães permanecem em estado de alerta mesmo quando os filhos estão seguros, porque sentem que são responsáveis por garantir que nada dê errado”, esclarece Fabiane.
A experiência da maternidade também motivou as jornalistas e amigas Elis Chamusca, de 36 anos, e Fabiane Araújo, de 39, a criarem a página Maea. A proposta surgiu da vontade de oferecer a outras mulheres um espaço de acolhimento semelhante ao que encontravam uma na outra durante as conversas e desabafos sobre os desafios de ser mãe.
“A intenção é que a Maea seja um respiro, um momento, mesmo que rápido, em que a mãe olha para si mesma. Em que ela consegue tirar da cabeça um pensamento ruim e encontrar um conforto em meio a tanta sobrecarga”, diz Elis, que é mãe de Rael, de 1 ano e 10 meses.
Elis também chama atenção para os desafios enfrentados por mulheres que precisam conciliar a maternidade com uma carreira profissional. Ela cita como exemplo a própria parceira na página, Faby, mãe de Bento, de 11 meses.
“Ela trabalha em uma grande empresa em tempo integral, tem o apoio da mãe com Bento durante o dia, o que é uma sorte enorme, mas a jornada não acaba quando ela chega, já que após o expediente é ela quem assume as demandas com o filho. É uma luta diária e a gente acha importante dizer isso numa página que fala sobre acolhimento. A Maea não vem de quem resolveu a maternidade, vem de quem está dentro dela”, relata.
Na avaliação da psicóloga, fatores sociais também contribuem para ampliar a sobrecarga feminina. Em muitos casos, os pais são vistos apenas como auxiliares na criação dos filhos, enquanto a mãe permanece como principal responsável pelas tarefas. Essa dinâmica é reforçada pela cobrança social em torno da figura da “boa mãe”, que estaria sempre disponível e pronta para atender às necessidades da família, dificultando momentos de descanso físico e emocional.
A rotina marcada por excesso de responsabilidades pode elevar os níveis de estresse e ansiedade, além de favorecer o surgimento de sintomas depressivos. Muitas mulheres também convivem com uma sensação constante de cobrança e culpa, mesmo quando já realizam inúmeras tarefas. A percepção de que nunca fazem o suficiente pode ser acompanhada ainda pela perda da própria identidade, fazendo com que algumas sintam que deixaram de existir como indivíduos para desempenhar exclusivamente o papel de mãe.
Para evitar que a sobrecarga evolua para um quadro de esgotamento, Fabiane destaca a importância de estabelecer limites na rotina. Para ela, reconhecer os próprios limites representa uma atitude de cuidado, e não de negligência.
“Aprender a dizer “não”, dividir responsabilidades, pedir ajuda e reservar momentos para si são atitudes que fortalecem o bem-estar e favorecem relações mais saudáveis. A maternidade não exige perfeição; os filhos precisam de uma mãe real, disponível e emocionalmente saudável, mas não uma mãe perfeita, não de uma mãe que se anule para dar conta de tudo”, ressalta.
Nesse processo, a participação dos parceiros também é considerada fundamental. Segundo a psicóloga, eles precisam compreender que não ocupam uma posição secundária na criação dos filhos e devem assumir efetivamente as responsabilidades familiares.
“Devem ter a mesma proatividade da mãe e entender que não podem fazer as demandas apenas quando são solicitados. Isso inclui perceber as necessidades da casa e dos filhos, organizar rotinas, tomar iniciativas e dividir as decisões também. O apoio emocional também é fundamental: validar o cansaço da mãe, oferecer momentos de descanso e evitar julgamentos. Quando a responsabilidade é realmente compartilhada, a maternidade deixa de ser um peso individual e passa a ser um compromisso coletivo”, salienta Fabiane.
O suporte da família também pode fazer diferença nesse cenário. Além de se disponibilizarem para ajudar nas tarefas e cuidados com as crianças, familiares podem contribuir evitando julgamentos sobre as escolhas e a forma como cada mãe conduz a criação dos filhos.