Projeto MURAL chega à 4ª edição com obra de Yacunã Tuxá na maior empena da capital baiana
Foto: Divulgação
A 4ª edição do Projeto MURAL (Movimento Urbano de Arte Livre) chega com novidades marcantes. Pela primeira vez, o projeto contará com a participação de uma artista indígena: Yacunã Tuxá. A artista integra o grupo selecionado para transformar grandes fachadas de prédios em Salvador em painéis de arte a céu aberto. Natural da aldeia Tuxá, situada no norte da Bahia, Yacunã se destaca por unir elementos da ancestralidade indígena com expressões contemporâneas, promovendo a visibilidade da cultura e das lutas dos povos originários.
A obra assinada por Yacunã foi intitulada “Somos Sementes” e tem como foco a afirmação visual da existência e importância dos povos indígenas, não apenas na capital baiana, mas também no cenário atual de enfrentamento às questões climáticas. A proposta também defende um Brasil mais inclusivo, ético e justo com os povos tradicionais — indígenas, quilombolas, ribeirinhos – e com o meio ambiente. “Participar do Projeto Mural é uma oportunidade de mostrar a força da arte de uma mulher indígena, homossexual, ocupando novos espaços, mantendo viva a nossa história e tradição. O que proponho é o reconhecimento da força dos povos indígenas das comunidades, a sua relevância e luta. Somos plurais, falantes de muitas línguas, vindos de muitas partes. Salvador teve em sua fundação o nosso sangue e suor – mas hoje essa cidade abarca a nossa presença real e viva – transformadora. Esse mural é demarcação da nossa presença, dos nossos saberes, jeito de ser, comer e beber, da nossa música, da nossa força e cura, da nossa arte e intelectualidade. Somos sementes dessa terra”, declara Yacunã.
A pintura vai destacar símbolos que representam, visualmente, a força, o afeto e a continuidade da cultura indígena. No centro da arte estará representada uma mulher indígena usando brincos com sementes de guaraná, com folhas sobre a cabeça e no peito um grafismo típico do povo Tuxá, evocando sua presença nas ilhas do rio São Francisco. “A mulher mãe com a criança de colo constrói a ideia de afeto e continuidade. A casa que carrega na cabeça é para simbolizar algo simples para nós: quando migramos, caminhamos, nos movemos – levamos a nossa casa conosco. Para nós, indígenas, a aldeia viva não sai de nós. Essa mulher de olhos fortes não é uma ancestral ou pessoa específica e, por isso, pode ser qualquer uma, pode se conectar com muitas mulheres indígenas ancestrais e vivas”, finaliza a muralista.
Segundo dados do último censo do IBGE, Salvador é a segunda capital do Brasil com maior população indígena. “Essa será a maior empena já realizada em toda a capital, com 52 m de altura. O maior mural artístico de nossa cidade será de uma artista mulher indígena, isso é muito simbólico e potente. Além disso, o mural será realizado em um dos prédios que se cadastraram através do nosso chamamento, que segue aberto a inscrições, para receber uma das obras propostas pelo projeto Mural e isso nos enche de orgulho”, afirma Vanessa Vieira, da Trevo Produções, idealizadora do projeto.
Além das pinturas em grande escala, o Projeto MURAL também contou, nesta edição, com um festival que promoveu exposições, debates, oficinas, painéis e apresentações culturais. Em março, foi realizada ainda uma feira de artes no DOCA 1, localizado no bairro do Comércio.
A 4ª edição do Projeto MURAL é fruto da parceria entre a Trevo Produções, a Fundação Gregório de Mattos (FGM), a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SECULT), a Secretaria Municipal da Fazenda (SEFAZ) e a Prefeitura de Salvador, com apoio do Programa Viva Cultura, na modalidade doação.