Produtor da primeira versão de Renascer promove no Brasil o maior evento mundial de cacau e chocolate
Foto: Alberto Monteiro
Na década de 1990, o Brasil passava por um processo de modernização comercial de bens e serviços, enquanto o cacau, uma das principais commodities agrícolas do país, enfrentava os impactos da vassoura-de-bruxa. A praga provocou uma queda expressiva na produção, mas não impediu o empresário Marco Lessa de investir em um projeto de verticalização e internacionalização do setor. Foi nesse contexto que surgiram eventos voltados ao fortalecimento da cadeia produtiva, como o Origem Week e o Chocolat Festival.
Empresário e publicitário, Lessa se consolidou como uma das figuras de destaque na transformação do mercado do cacau. O setor, que antes concentrava suas atividades na exportação da matéria-prima, passou a explorar a fabricação de derivados de alta qualidade, o desenvolvimento tecnológico, a sustentabilidade, os negócios e o turismo.
À frente da MVU Empreendimentos, responsável pelo Chocolat Festival, que já soma 49 edições, Marco Lessa agora amplia seus objetivos com a realização do Salon du Chocolat no Brasil, considerado um dos principais eventos internacionais dedicados ao cacau e ao chocolate.
Da publicidade ao universo do cacau
Natural de Guanambi, no alto sertão da Bahia, localizada a aproximadamente 800 quilômetros de Salvador, Marco teve seus primeiros contatos com o universo do cacau ainda jovem, após se mudar para Ilhéus, no sul do estado. Filho de uma professora e de um bancário, optou pela carreira publicitária, área que lhe proporcionou prêmios e oportunidades decisivas para sua trajetória profissional.
Entre essas experiências, estão uma visita a Gramado, conhecida na época como “Terra do Chocolate”, e sua participação na equipe de produção local da novela Renascer, exibida pela Rede Globo em 1993. A trama tinha as fazendas de cacau do sul da Bahia como parte do cenário.
As vivências despertaram ainda mais o interesse do empresário pelo setor, mesmo diante do avanço da vassoura-de-bruxa, que comprometia as plantações de cacau na região. Na década de 1990, Lessa fundou a empresa de eventos e negócios MVU Empreendimentos, integrante do Grupo M21, com a proposta de desenvolver iniciativas capazes de fortalecer a cadeia produtiva nacional, então afetada pela crise provocada pela doença.
Em 2009, ele promoveu a primeira edição do Chocolat Festival. Realizado em Ilhéus, o evento começou de forma modesta, com apenas 13 estandes, mas marcou o início de um projeto que ganhou dimensão internacional.
Atualmente, o festival é considerado o maior do segmento na América Latina, com edições realizadas em diferentes cidades do Brasil e do exterior. A programação reúne centenas de marcas e expositores, além de produtores, chocolateiros, chefs, pesquisadores e visitantes. Ao longo de suas edições, o evento já alcançou um público superior a 1,2 milhão de pessoas por ano.
A atuação de Marco Lessa no desenvolvimento da economia nacional também foi reconhecida em três ocasiões, quando seu nome apareceu entre os cem empresários mais influentes do agronegócio brasileiro, em listas elaboradas pelas revistas IstoÉ e Agroworld.
Expansão para outras cadeias produtivas
O objetivo de Lessa não se limitava à transformação do chocolate brasileiro em um produto competitivo no mercado internacional. O empresário também buscou valorizar diferentes segmentos da agricultura familiar e estimular o desenvolvimento de destinos turísticos na Bahia.
Com essa proposta, criou o Origem Week, que já contabiliza cinco edições no estado. O projeto posteriormente foi ampliado para cadeias produtivas de outras regiões do país, dando origem ao Brasil Origem Week, que também chegou a cidades como Brasília e a países como Portugal, França e Bélgica.
“O cacau deixou de ser mero coadjuvante. O número de produtores de chocolate de alta qualidade só cresce e conquista prêmios e o mercado mundial. O Brasil tem muitos produtos incríveis, além do cacau e do chocolate, como o açaí, a castanha do Pará, o guaraná, o café especial, a cachaça e tantos outros, que decidimos replicar o modelo do Chocolat com um evento com mais diversidade. A motivação é a mesma: mostrar nossos produtos ao mundo e incentivar novos negócios, transformando a vida de quem produz.”
Salon du Chocolat chega a Salvador
Com sede em Paris e edições realizadas em cidades como Dubai, Xangai, Tóquio, Riade e Nova York, o Salon du Chocolat será realizado em Salvador entre os dias 10 e 13 de dezembro.
A programação reunirá chefs renomados, marcas brasileiras e estrangeiras de chocolate, produtores rurais, empresários, especialistas, lideranças e consumidores. O encontro terá como foco as principais tendências do mercado e os debates sobre o futuro da produção de cacau no mundo, além de destacar a diversidade e o potencial da cadeia produtiva brasileira, que ocupa atualmente a sexta posição no ranking global.
Entre as atrações previstas estão uma Feira de Produtos e Negócios, a Cozinha Show com chefs convidados, exposições de esculturas em tamanho real, desfile de moda com peças confeccionadas a partir de cacau e chocolate, degustações e atividades técnicas.
O evento também terá palestras, workshops, painéis e rodadas de negócios. As primeiras atrações já começaram a ser anunciadas, incluindo a participação do chef francês Guillaume Gomez, reconhecido como embaixador da gastronomia da França.
“Uma honra trazer o Salon du Chocolat para o Brasil com uma edição completa, histórica e definitiva — e na Bahia, a terra do cacau. Após 17 anos de parceria com o Brasil, e da presença consolidada nas maiores capitais do mundo, o Salon coloca o país no calendário oficial com uma edição própria no destino que é, afinal, a origem do cacau”, afirmou Marco Lessa, CEO da MVU/M21.
Agenda internacional de Marco Lessa
Antes da realização do Salon du Chocolat em Salvador, Marco Lessa participará de uma série de compromissos internacionais voltados à divulgação do cacau, do chocolate e de outros produtos de origem brasileira.
As atividades serão concentradas nos mercados europeu e asiático, que estão entre os principais consumidores e compradores desses produtos. Entre outubro e novembro, Portugal, França, Suíça e China receberão as chamadas “missões Brasil”, iniciativas comerciais e estratégicas promovidas pelo governo e por entidades do agronegócio para estimular a exportação de cacau fino e sustentável.
A agenda inclui ainda a participação nas edições do Salon du Chocolat de Paris e Xangai, além da divulgação de eventos brasileiros, como o Brasil Origem Week e o Chocolat Festival.
Calendário de eventos
- 8 a 11 de outubro: Brasil Origem Week + Chocolat Festival Portugal — Lisboa, Portugal.
- 26 de outubro a 1º de novembro: Brasil Origem Week + Salon du Chocolat de Paris — Paris, França.
- 3 a 5 de novembro: Missão Cacau do Brasil — Zurique, Suíça.
- 6 a 14 de novembro: Missão Cacau do Brasil + Salon du Chocolat de Xangai — Xangai, China.
- 1º e 2 de dezembro: Açaí Summit — Belém, Brasil.
Recuperação do mercado do cacau movimenta investidores
Após três anos consecutivos de déficit e redução na oferta, que contribuíram para a elevação dos preços entre 2024 e 2025, o mercado internacional do cacau passa por uma fase de transição.
A commodity, que chegou a atingir a marca histórica de US$ 13 mil por tonelada na Bolsa de Nova York, atualmente apresenta cotação pouco superior a US$ 6 mil. O valor representa menos da metade do recorde registrado em dezembro de 2024.
Apesar de os preços ainda permanecerem acima das expectativas de parte da indústria e dos produtores, o movimento de recuperação tem despertado novamente o interesse de investidores brasileiros e estrangeiros.
De acordo com a Hedgepoint Global Markets, a previsão é de um superávit de 111 mil toneladas na safra 2026/27. O volume representa uma redução de pouco mais de 200 mil toneladas em relação ao ano anterior.
O desempenho está relacionado à queda na produção de grandes produtores africanos, como Gana e Costa do Marfim, responsáveis, juntos, por aproximadamente metade da produção mundial de cacau. Esse cenário ocorre paralelamente a um crescimento de 2,5% na moagem das amêndoas.
Mesmo com a previsão de um excedente menor, o mercado mantém uma perspectiva de avanço e expectativa positiva para os próximos anos, com preços dentro de uma margem de rentabilidade competitiva e redução dos estoques.
Em meio às mudanças estruturais que vêm reorganizando a cadeia produtiva do cacau, o Brasil ganha destaque como sede do Salon du Chocolat. A realização do evento no país representa uma oportunidade de ampliar a visibilidade da produção nacional, aproximar autoridades e investidores e fortalecer a presença brasileira no mercado internacional de chocolates de alta qualidade e cacau sustentável.