Polêmica sobre venda de áreas verdes em Salvador repercute em conferência nacional
Foto: Ilustração / Secis
A discussão sobre a venda de áreas verdes em Salvador, que tem sido pauta constante na capital baiana, ganhou visibilidade nacional durante a 5ª Conferência Nacional do Meio Ambiente (CNMA), realizada em Brasília. Um dos principais desdobramentos do encontro foi a aprovação, por ampla maioria, de uma moção de repúdio contra essa prática.
A proposta do documento partiu da vereadora Marta Rodrigues (PT), que participou da conferência. A iniciativa teve como objetivo denunciar o que organizações da sociedade civil, ambientalistas e estudiosos apontam como uma ofensiva contra o patrimônio natural da cidade, motivada pela especulação imobiliária.
Com a assinatura de mais de 250 delegados e delegadas, a moção destaca os efeitos negativos dessas transações: diminuição da vegetação, aumento das temperaturas, menor capacidade de infiltração da água no solo, elevação do risco de enchentes e deslizamentos, além da intensificação da desigualdade ambiental, uma vez que as regiões com maior presença de áreas verdes costumam ser também as mais abastadas. O texto ainda ressalta que Salvador é, segundo o Censo de 2022, a segunda capital brasileira com menor arborização e enfrenta uma crescente degradação ambiental nas zonas urbanas.
“Trata-se de uma política urbana irresponsável, marcada pela venda sistemática de áreas verdes, agravando a crise climática e colocando em risco o direito à cidade e à vida digna”, afirma a moção. “É um modelo que aprofunda desigualdades, marginaliza territórios populares e despreza os compromissos ambientais assumidos internacionalmente”, continua o documento.
Segundo a vereadora, a moção foi bem recebida pelos participantes da conferência, vindos de diferentes partes do país e ligados a diversas organizações. “É simbólico e muito importante que essa moção tenha partido de uma conferência nacional com respaldo de entidades sérias, que há anos lutam com credibilidade em defesa da pauta da Emergência Climática. O que está acontecendo em Salvador é grave e precisa ser interrompido com urgência. Vender áreas verdes é colocar em risco a vida nas cidades, aumentar o calor, o risco de enchentes e desrespeitar o direito à natureza, o direito à cidade e à qualidade de vida”, diz.
Entre os que assinaram o documento estão representantes de entidades como o Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais (FBOMS), a Rede de Juventude pelo Clima, a Articulação Nacional de Agroecologia, além de diversas redes de atuação ambiental. A moção será encaminhada ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, ao Ministério Público e também a instituições internacionais, como um alerta sobre o modelo de urbanização adotado pela capital baiana.
A 5ª CNMA, realizada entre os dias 6 e 9 de maio, reuniu mais de 1.500 delegados e membros da sociedade civil, sob o tema “Emergência Climática e o Desafio da Transformação Ecológica”. A moção contra a política ambiental de Salvador esteve entre os destaques do evento, reforçando o chamado à revisão das estratégias urbanas frente à crise ambiental global.
Para Marta Rodrigues, espaços como a CNMA têm papel essencial na ampliação dos debates e no fomento a políticas públicas. “As conferências nacionais são espaços estratégicos de escuta e articulação para avançar na pauta da emergência climática. É onde os territórios se encontram com a política nacional e internacional. Por isso, é tão grave quando uma cidade como Salvador insiste em andar na contramão”, disse Marta.
Ela também criticou fortemente a condução da gestão municipal frente ao tema: “A oposição na Câmara tem denunciado sistematicamente o desmonte das áreas verdes de Salvador, mas o que obtemos do prefeito é apenas desdém e descaso. A gestão municipal está passando vergonha a nível nacional e se recusa a se adequar ao comportamento ambiental já estabelecido pelas grandes capitais, que veem no meio ambiente o futuro para uma sociedade justa, digna, com conforto ambiental e respeito aos cidadãos.”
Contexto
A questão ganhou projeção em nível nacional após reportagens de veículos como a Folha de S. Paulo evidenciarem o avanço do mercado imobiliário sobre áreas de vegetação remanescente e a falta de transparência da prefeitura nos processos de venda.
“A Emergência Climática é real e já está batendo à nossa porta. As cidades precisam se adaptar, proteger suas áreas verdes, garantir mais arborização e não menos. Salvador vai na contramão do mundo”, diz outro trecho da moção.