“O Segredo de Sikán”: produção de fantasia inspirada na mitologia africana será filmada na Bahia”
Foto: Flávio Rebouças
O Recôncavo Baiano será cenário das filmagens de O Segredo de Sikán, primeiro longa-metragem de ficção da cineasta cachoeirana Everlane Moraes. Entre os nomes cogitados para o elenco está a atriz Grace Passô, primeira dramaturga negra a conquistar o Prêmio Shell de Teatro, um dos mais prestigiados das artes cênicas no Brasil. As gravações estão previstas para começar em outubro de 2025, nas cidades-irmãs Cachoeira e São Félix. Inspirada em um mito africano, a obra mistura elementos reais e sobrenaturais do realismo fantástico para abordar temas como protagonismo feminino e disputas por território.
No mito original, Sikán é uma princesa da antiga Nigéria escolhida por uma divindade para guardar um segredo capaz de trazer paz ou guerra. Acusada de revelar o mistério, ela é condenada e morta por homens. Na releitura de Everlane, Sikán não conta o segredo e, para escapar da condenação, se lança ao rio Odan, transformando-se em um peixe mágico que viaja por séculos até chegar ao rio Paraguaçu, na Bahia. Com o conhecimento da profecia, ela passa a lutar por justiça e pelo retorno do sol para seu povo. A diretora explica que sua proposta é reinterpretar o papel da mulher na história, rompendo com a perspectiva original que considera misógina.
“Os mitos são histórias geralmente contadas por homens em diferentes épocas e contextos históricos. Nesse em específico, Sikán foi morta por ser uma mulher frágil e passiva, assim como muitas outras personagens femininas de outras tantas narrativas já conhecidas. Resolvi então mudar o caráter da personagem, de indiscreta e indefesa, para discreta e corajosa, mudando assim o seu destino. A partir disso, pensei em fazer um filme onde as mulheres estivessem no centro do discurso, protagonizando o mito e narrando-o do ponto de vista delas”, endossou.
O mito, preservado por uma sociedade secreta masculina de Cuba (Abakuá), chegou ao conhecimento da cineasta durante sua estadia no país entre 2015 e 2018, quando estudou na Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV). O interesse pelo tema surgiu a partir do contato com o trabalho da artista cubana Belkis Ayón (1967-1999), que representou visualmente a história da princesa e será homenageada no filme por meio da personagem Sara.
Durante o desenvolvimento, o projeto participou de laboratórios nacionais e internacionais, sendo reconhecido como Melhor Projeto em Desenvolvimento no BrasilCineMundi, em Belo Horizonte, e pelo Hubert Bals Fund, na Holanda. Em 2023, com o apoio do Lab Negras Narrativas, da APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro), Everlane viajou à Nigéria para conhecer de perto o território de origem do mito e estudar o mercado cinematográfico local.
“Na Nigéria, tive a oportunidade de visitar a Floresta Sagrada de Osun-Osogbo, um Patrimônio Mundial da UNESCO, localizado no sudoeste do país, para buscar a proteção para esse rio, relacionando-o ao rio Paraguaçu, em Cachoeira. Também apresentei o projeto ao mercado local, conhecido como Nollywood, segunda maior indústria cinematográfica do mundo em termos de produção, conhecendo possíveis parceiros e principalmente buscando uma janela de exibição para levar essa história até o público nigeriano, já que o mito que dá origem ao filme começa em Calabar, capital do estado de Cross River, originalmente chamada de Akwa Akpa, na língua Efik, povo que domina esta área”, contou.
A produção será majoritariamente noturna, com locações em Cachoeira e São Félix — cidades historicamente relevantes na luta pela Independência do Brasil na Bahia. Separadas pelo rio Paraguaçu, as duas localidades serão retratadas na narrativa como espaços marcados por tensões sociais e conflitos relacionados à água e ao território. O elenco será formado exclusivamente por atores e atrizes negros, mesclando talentos locais e nomes reconhecidos do cinema nacional.
“A intenção sempre foi de viabilizar uma produção que pudesse respeitar a assinatura artística da Everlane, mas que também se comunicasse com o nosso público. O filme, então, nos leva a um mundo distópico, onde não há a luz do sol, e duas cidades vivem buscando formas de sobreviver: Cachoeira, uma cidade matriarcal, vive sob a luz de velas. No acordo ancestral, em troca da terra empobrecida, perdeu o acesso ao Rio Paraguaçu. Já São Félix, a cidade industrial e com os homens no poder, se desenvolveu ao longo dos anos retirando uma luz mágica do fundo do rio, tendo vitalidade para as plantações de alimentos e aos seus guerreiros. Pela falta de luz, as mulheres de Cachoeira estão padecendo de um mal, o adormecimento”, disse Fernanda Vidigal, produtora do longa.
O Segredo de Sikán é uma coprodução da Carapiá Filmes e da Pattaki Produções, com distribuição da Embaúba Filmes, mesma responsável pelo lançamento de Marte Um, de Gabriel Martins, indicado ao Oscar em 2023. A produção conta com apoio da Odé Produções e recursos do Fundo Setorial do Audiovisual da ANCINE (Novos Realizadores) e do edital estadual da Bahia por meio da Lei Paulo Gustavo.