Especialistas destacam como exame pré-implantacional pode prevenir condições genéticas em recém-nascidos
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Um dos principais avanços da medicina reprodutiva atual é a possibilidade de identificar previamente a saúde genética dos embriões, trazendo mais segurança para os tratamentos de fertilização e reduzindo os riscos de doenças hereditárias. O Diagnóstico Genético Pré-implantacional (PGT) é o exame responsável por essa avaliação, permitindo a seleção de embriões cromossomicamente saudáveis para serem implantados no útero da mulher. A técnica é eficaz na prevenção de condições como Síndrome de Down, hemofilia e fibrose cística, entre outras alterações genéticas.
“Ter um bebê saudável é o desejo de toda pessoa que decide ter filhos”, afirma a médica Gérsia Viana, especialista em Reprodução Humana Assistida e diretora do Cenafert – Centro de Medicina Reprodutiva, localizado em Salvador e integrante do Grupo Huntington, uma das maiores referências do país em reprodução assistida.
A médica explica que, embora seja possível minimizar os riscos de doenças genéticas por meio da reprodução assistida, há limites técnicos, éticos e legais no que diz respeito ao planejamento das gestações. “Através da reprodução assistida conseguimos planejar gestações seguras e reduzir o risco de determinadas doenças para os bebês, mas não é possível gerar uma ‘criança ideal’, muitos pacientes imaginam ter um filho com características e habilidades específicas ou relatam que gostariam de escolher o sexo do bebê, mas há limites tantos das técnicas da medicina reprodutiva quanto éticos e legais”, esclarece.
Ela ainda destaca a importância do diálogo claro desde o início do tratamento. “Nesses casos, é fundamental que todos esses limites sejam esclarecidos já na primeira consulta, alinhando as expectativas do paciente com a realidade. Também é importante que os pacientes tenham um acompanhamento multidisciplinar para prepará-los para o enfrentamento da infertilidade, a gravidez e a chegada, ou não, do filho biológico”, conclui Gérsia.
Do ponto de vista psicológico, o caminho pode envolver angústias e idealizações. A psicóloga Liliane Carmen Souza dos Santos, também do Cenafert, pontua que “uma parcela significativa das pessoas que buscam tratamentos especializados para ter filhos precisa lidar com várias frentes: A angústia do filho que não veio espontaneamente, a ansiedade pelos resultados do tratamento e, muitas vezes, ainda o desejo de uma criança idealizada”.
Para ela, é essencial que pais em potencial se conectem com a realidade do processo. “Um bebê não pode ser gerado com essa obrigação de satisfazer expectativas da família ou da sociedade. Ele vai crescer, estudar, interagir com diversos meios, fazer suas escolhas, ter sua individualidade, personalidade própria e construir sua jornada”, afirma. “É preciso entender o desejo de ser mãe ou pai, conectar-se com a realidade, receber o bebê com suas características únicas, e deixar de lado a idealização do filho perfeito”, acrescenta Liliane.
Seleção de sexo não é permitida
A legislação brasileira proíbe a escolha do sexo do bebê, mesmo nos casos em que o Diagnóstico Genético Pré-implantacional é realizado. O Conselho Federal de Medicina (CFM) determina que, embora o laudo possa apontar o sexo do embrião, essa informação não pode ser utilizada para fins de escolha. “O médico deve transferir para o útero da futura mãe o embrião considerado morfologicamente melhor e não o menino ou menina”, ressalta Gérsia Viana.
Diagnóstico Genético Pré-implantacional: o que é e para quem é indicado
O exame genético pré-implantacional é uma técnica utilizada durante a Fertilização in Vitro (FIV) que avalia os cromossomos dos embriões antes da implantação no útero. O objetivo é identificar alterações genéticas ou hereditárias, garantindo uma maior taxa de sucesso nos ciclos de FIV e reduzindo os riscos de aborto ou falhas no processo.
“Além de aumentar as chances de sucesso nos tratamentos para ter filhos, o exame genético reduz o risco de doenças genéticas e hereditárias”, afirma Gérsia.
O exame é recomendado, principalmente, em situações como:
- Casais com histórico familiar de doenças genéticas;
- Mulheres com repetidas falhas de implantação;
- Casos de abortamentos recorrentes;
- Pacientes com idade materna avançada, especialmente mulheres acima dos 38 anos que desejam engravidar com seus próprios óvulos.
Com o aumento da idade materna entre as brasileiras – muitas delas optando por engravidar após os 35 anos -, a busca por recursos que garantam mais segurança à gestação tem se tornado cada vez mais comum. “Uma das indicações do exame genético pré-implantacional é justamente para mulheres com mais de 38 anos de idade que desejam ser mães com seus próprios óvulos”, reforça a médica.
Além de ser uma ferramenta clínica relevante, a técnica também contribui para reduzir os custos emocionais e financeiros relacionados à repetição de tentativas de fertilização que não resultam em gravidez.