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Economista alerta que fim da escala 6×1 pode elevar preços de alimentos e serviços na Bahia

 Economista alerta que fim da escala 6×1 pode elevar preços de alimentos e serviços na Bahia

Foto: Divulgação

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A possível aprovação do fim da escala 6×1, acompanhada da redução da jornada máxima para 40 horas semanais sem diminuição dos salários, pode gerar consequências que ultrapassam o ambiente de trabalho e chegar aos preços pagos pelos consumidores na Bahia. A avaliação é do economista e CEO da Ônix Capital, Vinicius Assis, que aponta a possibilidade de um “efeito cascata” nos custos de produção, principalmente em atividades que dependem de grande quantidade de trabalhadores.

O tema ganhou destaque no estado nesta semana, após representantes das federações empresariais baianas se reunirem em Salvador para discutir os possíveis reflexos da mudança. Conforme cálculos apresentados pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), a alteração poderia representar um aumento aproximado de 22% nos custos da pecuária leiteira e de 19% em segmentos como fruticultura, produção de café e laranja. Segundo a entidade, parte desse impacto pode acabar sendo incorporada aos preços ao consumidor.

Na avaliação de Vinicius, o debate econômico deve se concentrar não apenas nos aspectos sociais da redução da jornada, mas também na maneira como as empresas conseguirão absorver o aumento dos custos relacionados à mão de obra.

“É uma discussão que precisa ser analisada para além do direito trabalhista. Quando se reduz a jornada sem redução salarial, é preciso entender como empresas que dependem de mão de obra intensiva vão manter o nível de operação. Em muitos casos, será necessário contratar mais pessoas, reorganizar turnos ou absorver um aumento de custo. E cada uma dessas alternativas produz consequências diferentes para a economia”, explica.

O especialista destaca que comércio, serviços, turismo, transporte e determinadas atividades do agronegócio podem enfrentar efeitos mais significativos, já que possuem maior dificuldade para substituir as horas de trabalho por automação ou ganhos rápidos de produtividade.

“Se uma empresa precisa manter o funcionamento durante mais dias e horários, mas cada trabalhador passa a ter uma jornada menor, ela terá que encontrar uma forma de preencher essas horas. Isso pode, de imediato, gerar demissões e contratações com salários menores, aumento de quadro e consecutivamente aumento da folha, gerando mais endividamento e inflação pelo repasse dos preços ou redução do horário de funcionamento. O problema é que nenhuma dessas alternativas é neutra do ponto de vista econômico, pelo contrário, inclusive, afirma.

Na economia baiana, o impacto pode ganhar proporções maiores devido à presença de cadeias produtivas que utilizam intensivamente a força de trabalho. No setor agropecuário, por exemplo, uma elevação nos gastos para produzir pode ser transferida ao longo das diferentes etapas da cadeia, alcançando a indústria, o comércio e, por consequência, o consumidor final.

“É o chamado efeito cascata. Se aumenta o custo para produzir leite, frutas ou outros alimentos, esse aumento pode chegar ao transporte, à indústria, ao comércio e ao preço final. Não significa que todo o aumento de custo será automaticamente repassado, porque cada empresa tem uma estrutura diferente e pode absorver parte dele. Mas existe, sim, um risco de pressão adicional sobre os preços”, explica Vinicius.

Inflação e poder de compra

Vinicius também chama atenção para o cenário financeiro enfrentado atualmente por empresas e consumidores, marcado por crédito mais caro e níveis elevados de endividamento. Segundo dados da Serasa Experian, o Brasil registrou mais de 9,1 milhões de empresas inadimplentes em junho de 2026, o maior número da série histórica, com R$ 232,9 bilhões em dívidas negativadas.

“Quando uma empresa está financeiramente pressionada, ela tem menos capacidade de absorver novos custos. Se não conseguir compensar esse aumento com produtividade, a tendência é procurar alternativas: reduzir margem em um cenário já muito difícil, demitir e contratar com reduções salariais, diminuir o ritmo da operação ou repassar parte do custo para os preços. É justamente aí que precisamos olhar para o consumidor, que também tem um orçamento limitado”, afirma.

Na visão do economista, é necessário evitar que uma alteração estrutural nas relações de trabalho desencadeie, de maneira não intencional, uma sequência de aumento nos custos, nos preços e de redução do poder de compra.

“É possível melhorar as condições de trabalho e, ao mesmo tempo, buscar eficiência econômica. O ponto é que uma mudança dessa magnitude precisa vir acompanhada de planejamento, transição e discussão sobre produtividade. Se o custo sobe muito mais rápido do que a capacidade de produção, podemos ter uma situação em que o trabalhador ganha mais tempo livre, mas encontra produtos e serviços mais caros e uma economia com menos capacidade de gerar renda”, avalia.

O especialista ressalta, contudo, que os efeitos da mudança não estão definidos e dependerão do formato que a proposta terá ao final, do prazo estabelecido para adaptação e das condições de cada setor para implementar a nova jornada.

“Não se trata de ser contra ou a favor da redução da jornada. É preciso entender a conta. Uma economia saudável precisa conciliar produtividade, renda, emprego, competitividade e poder de compra. Quanto melhor for planejada a transição, menores serão os riscos de que uma mudança importante nas relações de trabalho acabe gerando efeitos indesejados sobre preços, informalidade ou emprego”, ressalta.

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