Artes visuais e tecnologia fortalecem o afrofuturismo na 6ª Festa Literária Arte e Identidade
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A possibilidade de imaginar diferentes futuros também abre espaço para participar da construção deles. Com uma programação gratuita voltada ao público infantojuvenil e estudantil, a 6ª Festa Literária Arte e Identidade será realizada entre os dias 16 e 18 de setembro, no Pelourinho. Com o tema “O Futuro é Ancestral – Arte e Literatura Afrofuturista”, o evento reúne crianças, adolescentes, familiares e professores em uma proposta de reflexão sobre novos imaginários a partir de referências negras.
Um dos destaques da programação é a mesa “HQs, Grafite e Visualidades Afrofuturistas”, marcada para 18 de setembro (sexta-feira), às 10h, no Espaço Juventudes, localizado no Largo Quincas Berro D’Água. A atividade reunirá profissionais de diferentes áreas artísticas para debater como as imagens podem transmitir ideias, fortalecer identidades, ampliar a representação de pessoas negras e projetar futuros a partir de perspectivas afrocentradas.
A conversa será mediada pela jornalista, escritora, pesquisadora e apresentadora Luana Souza e contará com a participação de Anderson Shon, escritor, poeta, educador e quadrinista, vencedor dos Troféus HQMIX de 2024 e 2025; Daniel Cesart, ilustrador, escritor, quadrinista, editor e professor, também vencedor do Troféu HQMIX e finalista do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica; Ananda Santana, grafiteira, designer e ilustradora formada pela UFBA, que utiliza a representação de mulheres negras em seus trabalhos; e Davi Cavalcanti (VJ Gabiru), artista multimídia, DJ, VJ, fotógrafo e videomaker.
“Eu fui jovem na década de 90, muito viciado em filmes, séries, televisão, e amava ficção científica, mas era muito difícil ver negros protagonizarem esse tipo de estética, como viagens no tempo. Quando a gente traz o afrofuturismo em suas diversas vertentes, estamos dizendo que o negro pode ser protagonista das suas obras, tanto como autor quanto como personagem. E isso cria novos imaginários positivos, porque, uma vez que nós, negros, estamos produzindo, a gente sabe como quer se representar para outros públicos. Quando o afrofuturismo é colocado para que jovens consigam se reconhecer, cria novas pontes e novas possibilidades de sonho”, comenta Anderson Shon.
Construindo novas possibilidades de futuro
A inclusão dos quadrinhos, do grafite e da arte multimídia na programação da 6ª Festa Literária Arte e Identidade evidencia uma das propostas centrais desta edição: aproximar a literatura de diferentes expressões artísticas e mostrar que imaginar novos futuros também envolve criar novas imagens, personagens e referências.
Por meio de histórias em quadrinhos, intervenções em muros, ilustrações e produções audiovisuais, o afrofuturismo amplia o espaço para que artistas negros não ocupem somente o lugar de personagens nas narrativas, mas também assumam o protagonismo na criação dessas histórias.
“Acho que o grande objetivo do afrofuturismo é criar raízes para que dessas raízes nasçam asas”, afirma o quadrinista Anderson Shon.
Literatura negra em destaque
A produção literária de autores negros também estará presente no dia 18 de setembro, às 9h30, no Espaço Identidades, no Museu Eugênio Teixeira Leal. A mesa “Da Ancestralidade ao Algoritmo: Literatura, Tecnologias e Futuros negros” propõe uma discussão sobre as relações entre literatura, ancestralidade e tecnologia.
A atividade será mediada por Tatiana Damião, pesquisadora de literatura negra infantil e professora da Educação Básica, e terá como convidados Dlaman Kobina (DF), escritor, professor, pesquisador e editor, com atuação em literatura preta, educação afrocentrada e tecnologias africanas; e Ana Fátima, escritora, poeta, professora e fundadora da Editora Ereginga Educação, voltada à publicação de autorias negras.
Na avaliação de Dlaman Kobina, relacionar ancestralidade e tecnologia significa reconhecer a participação africana na produção do conhecimento e compreender que passado, presente e futuro estão interligados.
“Quando a gente pensa em ancestralidade e algoritmo, muitas vezes as pessoas pensam que são opostos, mas eles estão mais próximos do que imaginamos. O algoritmo, como uma representação simbólica, sistemática e numérica, também está relacionado a matrizes antigas da matemática e da produção da ciência no continente africano. Pensar essa relação é entender que a ancestralidade também está no presente e que nós somos, ao mesmo tempo, continuação daqueles que vieram antes e ancestrais do futuro”, afirma.
Tecnologia e novas formas de compartilhar conhecimento
A programação da festa também promove debates sobre a maneira como conhecimentos ancestrais podem ser compreendidos enquanto tecnologias e utilizados como inspiração para novas formas de produzir, compartilhar e preservar saberes.
No dia 17 de setembro, às 15h, o Espaço Juventudes será palco da mesa “Conexões AfroTech: Ancestralidade, Códigos e Tecnologias negras”. Entre os assuntos discutidos estará a criação de jogos inspirados em referências afrocentradas, utilizados como ferramentas de educação em saúde, autocuidado e democratização do acesso à informação para a população negra.
Participam do encontro Eliane Boa Morte, pedagoga, pesquisadora e escritora com atuação na valorização das histórias e culturas africanas e afro-brasileiras na educação; Suiane Ferreira, professora titular da UNEB e coordenadora do grupo de pesquisa Comunidades Virtuais e do Coletivo Afrocentrar Saúde: Ilera Dudu; e Milena Moraes, gestora de inovação e especialista em estudos do futuro, responsável pela mediação.
Eliane Boa Morte destaca que abordar a tecnologia negra também envolve reconhecer formas ancestrais de criação e transmissão do conhecimento que ultrapassam o ambiente digital.
“Os Adinkras mostram como os povos Akan articularam ancestralidade, códigos e tecnologia por meio de um sistema de ideogramas que transmite conhecimentos, valores e filosofias. Pensar os Adinkras como tecnologia negra é reconhecer os povos africanos como produtores de conhecimento, sistemas de comunicação, técnicas e formas próprias de preservar e transmitir a memória entre gerações”, explica.
Espaços voltados à leitura e à criação
A 6ª Festa Literária Arte e Identidade será distribuída em quatro espaços principais no Pelourinho. O Espaço Infantil Brilho, no Largo Tereza Batista, concentrará as atividades destinadas às crianças e a Feira Maria Felipa de empreendedorismo.
No Largo Quincas Berro D’Água, o Espaço Juventudes será dedicado ao público jovem, com a realização da final do Concurso de Escrita Criativa, além de exposições e debates. Já o Espaço Empoderamento, na Casa Vale do Dendê, terá oficinas, lançamentos exclusivos e encontros com escritores. No Museu Eugênio Teixeira Leal, o Espaço Identidades receberá as mesas literárias.
A programação também terá como atrações a Mostra Gamepólitan de Jogos Digitais, promovida pela 42 Cultural, e o Espaço de Jogos de Mesa, organizado pela LAB108, laboratório criativo que trabalha na interseção entre jogos, educação, tecnologia e cultura.
Com curadoria de Silvani Neri, a atividade permitirá ao público conhecer jogos africanos tradicionais e testar protótipos desenvolvidos a partir de temas e referências das culturas africanas e afro-brasileiras.
A variedade de ambientes acompanha a proposta de reunir diferentes públicos em torno da literatura e de destacar múltiplas perspectivas. A coordenação geral é de Cris Santana, enquanto a curadoria é formada por Taisa Ferreira, escritora de literatura afrocêntrica para as infâncias, pedagoga e doutora em Educação; Karla Daniella Brito, coordenadora pedagógica, escritora, poeta, educadora e psicopedagoga; e Evanilson Alves, poeta, escritor e educador social.
Programação além dos espaços principais
Ao longo dos três dias, a Festa Literária Arte e Identidade também ocupará equipamentos culturais parceiros, que terão atividades realizadas simultaneamente e ampliarão as oportunidades de contato do público com a história, a arte e a cultura baiana.
Entre as ações previstas estão visitas guiadas, exposições, oficinas e experiências sensoriais na Casa do Carnaval, Casa do Idoso, Casa do Olodum, Escola Olodum, Museu Eugênio Teixeira Leal, Museu de Energia, Solar Ferrão, SEPROMI – Unidade Móvel do Centro de Referência Nelson Mandela e Projeto Axé – Axébuzu.
A Festa Literária Arte e Identidade conta com apoio financeiro do Estado da Bahia, por meio do Fundo de Cultura, da Secretaria de Cultura e da Secretaria da Fazenda.