15 de fevereiro de 2026
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A Era do cacau: a história do empresário brasileiro que transformou o fruto em força econômica e turística

 A Era do cacau: a história do empresário brasileiro que transformou o fruto em força econômica e turística

Foto: Alberto Monteiro

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No começo da década de 1990, o Brasil dava os primeiros passos na abertura comercial internacional enquanto o cacau, um dos pilares históricos da economia nacional, enfrentava uma de suas piores crises com o avanço da vassoura-de-bruxa, doença que provocou uma queda acentuada na produção. Diante de um cenário pouco promissor, foi justamente nesse contexto que o empresário Marco Lessa iniciou a construção do que viria a se tornar um verdadeiro império do cacau no país. À frente de iniciativas como o Chocolat Festival e o Origem Week, o baiano ajudou a reposicionar o fruto, que deixou de ser visto apenas como commodity e passou a ganhar destaque pela produção de derivados de alto valor agregado, além de impulsionar negócios e o turismo.

Natural de Guanambi, no alto sertão da Bahia, a cerca de 800 quilômetros de Salvador, Marco teve seu primeiro contato com o cacau ainda jovem, após se mudar para Ilhéus, no sul do estado. Filho de uma professora e de um bancário, optou por seguir carreira na publicidade, escolha que acabou sendo determinante para sua trajetória. Nesse período, teve a oportunidade de conhecer Gramado, então conhecida como “Terra do Chocolate”, e de integrar, em 1993, a equipe de produção local da novela Renascer, da TV Globo, cuja narrativa se passava em meio às fazendas cacaueiras baianas.

Essas vivências despertaram o olhar empreendedor de Marco, que permaneceu atento ao potencial do setor mesmo com o agravamento da crise provocada pela vassoura-de-bruxa nas lavouras do sul da Bahia. No fim dos anos 1990, ele fundou a MVU Empreendimentos, empresa voltada à realização de eventos e à geração de negócios, buscando parcerias com uma cadeia produtiva nacional que ainda tentava se reerguer. Em 2009, lançou a primeira edição do Chocolat Festival. O evento começou de forma modesta, em Ilhéus, com apenas 13 estandes e muitas expectativas. O resultado superou as projeções iniciais.

Hoje, o Chocolat Festival é reconhecido como o maior evento do segmento na América Latina. Ao todo, já foram realizadas 44 edições no Brasil e no exterior, reunindo mais de 500 marcas, cerca de 350 expositores por edição e um público que ultrapassa 1,2 milhão de visitantes, entre produtores, chocolateiros, chefs, pesquisadores e admiradores do chocolate. A contribuição de Marco Lessa para o agronegócio brasileiro também lhe rendeu reconhecimento nacional, com três indicações à lista dos cem empresários mais influentes do setor, elaborada pela Revista Agroworld.

A ambição de Marco, no entanto, ia além de tornar o chocolate brasileiro mais competitivo. Conhecido como o “Embaixador do Cacau”, ele passou a desenvolver ações voltadas ao fortalecimento da agricultura familiar e das zonas turísticas da Bahia. Assim surgiu o Origem Week, que já soma quatro edições no estado e se expandiu para cidades como Brasília e Altamira, além de alcançar países como Portugal e Bélgica.

“O cacau deixou de ser coadjuvante. O número de produtores de chocolate da mais alta qualidade só cresce e se fortalece no cenário mundial. O Brasil tem produtos incríveis, além do cacau e do chocolate, como a castanha do Pará, o guaraná, o café especial, o charuto e outros tantos que decidimos expandir para um evento paralelo. A motivação é a mesma: mostrar nossos produtos ao mundo e incentivar novos negócios”.

Internacionalização e turismo

Com foco em ampliar o reconhecimento do Brasil no mercado internacional, Marco Lessa lidera anualmente Missões Internacionais voltadas à valorização da origem e da sustentabilidade do cacau e do chocolate brasileiros. As ações conectam produtores nacionais a chefs, especialistas e agentes do comércio exterior, com forte participação de representantes do Pará e da Bahia, estados responsáveis por mais de 80% da produção nacional de cacau.

A mais recente missão ocorreu em Paris, durante o Salon du Chocolat 2025, quando o Brasil foi homenageado como País de Honra. Marco comandou a delegação brasileira, formada por produtores, fabricantes e autoridades, e as negociações realizadas durante o evento geraram cerca de 5 milhões de euros em potenciais negócios. Para 2026, a MVU já projeta novas ações estratégicas na Europa e nas Américas.

Além de fomentar acordos comerciais e a troca de conhecimento, essas iniciativas contribuem para reposicionar a Bahia e o Brasil como destinos de turismo gastronômico e de negócios. Roteiros como a Estrada do Chocolate, na Costa do Cacau baiana, e a Rota Transamazônica, no Vale do Xingu, no Pará, oferecem experiências imersivas na cultura cacaueira, com visitas a fazendas, acompanhamento das etapas de cultivo e colheita e degustações em fábricas, beneficiando famílias que vivem da agricultura e do turismo rural.

Bahia ganha destaque no mercado internacional

Maior exportadora e segunda maior produtora de cacau do Brasil, a Bahia deixou de ocupar apenas o papel de fornecedora de matéria-prima e passou, nas últimas décadas, a investir no beneficiamento integral do fruto. O estado ampliou a produção de derivados como chocolate, manteiga de cacau, cacau em pó, nibs, mel, além de itens destinados aos setores cosmético e farmacêutico.

Nesse contexto, a Bahia começa a se consolidar como uma das apostas promissoras na produção de chocolates finos, impulsionada pelo modelo bean-to-bar (do grão à barra). O movimento resultou no surgimento de centenas de marcas focadas no controle e na melhoria da qualidade do produto. Eventos como o Chocolat Festival e o Origem Week tiveram papel central nesse processo, ajudando a projetar o cacau brasileiro no exterior e a atrair a atenção internacional para práticas sustentáveis e inovadoras, que agregam valor à produção, estimulam a conservação ambiental e promovem o desenvolvimento social.

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