5ª Festa Literária Arte e Identidade terá oficinas afro-indígenas, debates literários e concurso de poesia
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A quinta edição da Festa Literária Arte e Identidade começa nesta quinta-feira (2) e segue até sábado (4), ocupando diferentes espaços culturais do Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador. A programação reúne múltiplas expressões artísticas de matrizes negras e indígenas, além da literatura infantojuvenil, e foi planejada para contemplar todas as idades, com atenção especial às crianças e aos jovens. A expectativa é de que cerca de cinco mil estudantes passem pelo evento ao longo dos três dias. Todas as atividades são gratuitas.
Entre as iniciativas voltadas para esse público está a segunda edição do concurso “Versos de Identidade”, voltado a alunos da rede pública. A disputa busca valorizar a escrita criativa como forma de expressão das vivências e sentimentos de crianças e adolescentes. A final acontece na sexta-feira (2), às 15h30, no Largo Quincas Berro D’Água, com dez estudantes apresentando seus poemas para o público e para os jurados. Os três primeiros colocados receberão prêmios em dinheiro e um kit com três livros da literatura negra infantojuvenil.
“O concurso nos leva às escolas e lá ouvimos o que os estudantes têm a dizer sobre o tema que estamos discutindo este ano, que é ‘Resistir é Festejar’. Estamos propondo um deslocamento da resistência que fazemos a partir da dor para um outro lugar: queremos pensar a resistência negra, indígena e afro-indígena a partir da felicidade. Pensar a resistência a partir da festa é muito positivo!”, explica Karla Daniella Brito, curadora do projeto e uma das coordenadoras do “Versos de Identidade”.
Para Karla, é indispensável envolver a juventude em iniciativas culturais como a Festa Literária Arte e Identidade. “Ailton Krenak diz que quando a gente sente o céu ‘pesado’, devemos ‘suspender’ o céu para contar uma nova história. E como podemos contar uma nova história sem os jovens?”, reflete.
Encerramento com teatro
A programação será concluída no sábado (4), às 17h, no Espaço Juventudes, com a participação de uma das personagens mais conhecidas do teatro baiano: Koanza, criada e interpretada por Sulivã Bispo. No espetáculo “Simbora, Negona”, a protagonista conduz uma espécie de talk show, marcado por improviso, humor ácido e crítica social.
“Koanza é nascida no Corredor da Vitória e tem um discurso antirracista. É através do constrangimento que ela dá resposta aos racistas. No texto, há elementos que combatem o preconceito através do humor. Mas sempre na contramão do racismo recreativo”, afirma Sulivã.
Segundo o ator, a peça também reforça a importância da identidade negra. “O negro, quando vem arrancado de África, perde tudo, inclusive seu nome. Começa, então, um processo de ressignificação de identidade. Quando comemos acarajé de uma baiana trajada, preservamos a nossa identidade. A identidade está no lugar de identificação. Identidade não é só sobrevivência: é viver com consciência”.
Representatividade indígena
A valorização das culturas indígenas também será destaque durante os três dias de evento. Uma das atividades é a roda de conversa “Palavras que Libertam: A Escrita e a Leitura Como Ato de Resistência e Protagonismo das Infâncias Negras e Indígenas”, que acontece nesta sexta-feira (3), às 14h, no Espaço Identidade, localizado no Museu Eugênio Teixeira Leal.
Entre os participantes está a escritora Márcia Kambeba, natural da aldeia Belém dos Solimões, no Amazonas, que atua na formação de professores indígenas e não indígenas em diferentes instituições no Brasil e no exterior. “Somos o povo das águas, com aldeias construídas próximas aos rios. Um povo que resistiu, mantendo sua cultura, memória, identidade e a língua viva, mesmo que fraturada pelo contato”, relata Márcia, que participará do encontro de forma remota.
Para a autora, a escrita e a leitura representam atos de resistência. “Para nós, povos indígenas, escrever é ocupar espaços que antes nos foram negados. É transformar a palavra oral em palavra escrita sem perder a força da ancestralidade. E ler também é resistir, porque ao lermos obras indígenas, estamos quebrando estereótipos e enfrentando a colonialidade do pensamento”.
Outros destaques
O escritor Daniel Munduruku é uma das presenças confirmadas da edição 2025 da Festa Literária Arte e Identidade. Autor de obras como O Olho Bom do Menino e Das Coisas que Aprendi, ele participa da conferência de abertura, “A Festa – Um Espaço de Resistência”, nesta quinta-feira (2), às 10h, no Espaço Juventudes, ao lado da professora baiana Vitalina Silva, com mediação da jornalista e escritora Luana Souza. Mais tarde, às 16h40, lança seu novo livro, Estações.
Diariamente, o público também poderá conferir no Espaço Juventudes uma exposição de grafite realizada por estudantes do Colégio Estadual Edvaldo Brandão Correia, no bairro de Cajazeiras IV, como resultado de uma oficina do projeto “Identidades”, da Associação Cultural Quero Ver o Momo.
Na sexta-feira (3), às 10h30, ocorre o lançamento coletivo “A Escola e o Ruir dos Muros”, no espaço Empoderamento – Casa Vale do Dendê (Sala Vatapá). Entre os autores participantes estão Agne Rouse Oliveira (Literatura – Conhecimento e Outras Formas de Entender e Contemplar o Mundo), Adriana Carvalho (Vozes Plurais no Espaço Escolar: Subjetividades e Práticas Culturais) e Jocevaldo Santiago (Práticas de Leitura com a Literatura Negra).
A programação infantil também ganha espaço com sessões de contação de histórias no sábado (4), no Espaço Leitura, no Largo Terreiro de Jesus. Às 10h e às 15h, a contadora Paula Anias apresentará “A Guardiã”, “A Lenda do Dendê” e “O Que Podem as Crianças Gêmeas”. No mesmo dia, acontece ainda o lançamento do livro Infância Roubada.
A Festa Literária Arte e Identidade é promovida pela Associação Cultural e Carnavalesca Quero Ver o Momo, com apoio financeiro do Governo da Bahia, por meio do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura. O evento também conta com recursos do edital Gregórios – Ano IV, da Fundação Gregório de Mattos, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador, além do fomento da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Ministério da Cultura e do Governo Federal.